Filosofia de verdade

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Prope est a te deus, tecum est, intus est. Ita dico, Lucili: sacer intra nos spiritus sedet, malorum bonorumque nostrorum observator et custos; hic prout a nobis tractatus est, ita nos ipse tractat. Bonus vero vir sine deo nemo est: an potest aliquis supra fortunam nisi ab illo adiutus exsurgere?

Tradução livre:

Deus está próximo a você, está com você, está dentro de você. É o que te digo, Lucílio: um espírito sagrado reside dentro de nós, um que marca nossas boas e más ações e que é nosso guardião; do mesmo modo que tratamos esse guardião, assim ele nos trata. Na verdade nenhum homem pode ser bom sem deus: pode alguém ter maior fortuna sem sua ajuda?

Retirado de Sêneca, Epistulæ Morales, XLI. Isso sim é filosofia.

3 Responses to “Filosofia de verdade”

  1. Carlos Lemes Says:

    Olá,

    O Texto é renascentista, e veja como é patente o completo abandono da forma de pensar medieval e a retomada do pensamento clássico dos gregos.

    Essa volta ao passado também é percebida pela forma gnóstica que a divindade é apresentada, como sendo uma centelha dentro dos seres vivos.

    Textos como esses são difíceis de serem encontrados hoje em dia, parabéns pela pesquisa, mas é bom sempre colocar uma elucidação para não confundir as pessoas.

    Parabéns pelo Blog.

    Carlos Lemes
    http://leitorcritico.wordpress.com/

    Amigo,

    Até onde eu saiba, esse texto é do filósofo estóico romano Sêneca, o jovem, contemporâneo de personalidades como o imperador Nero e aquele cara famoso, Jesus Cristo ou Yeshua Ben Yossef; tanto é que o retirei de um e-book de suas “Epistulæ Morales”, também conhecidas como “Cartas a Lucílio”. É da carta número 41 (XLI), que já tive o prazer de ler numa edição impressa e bilíngue, em latim e em inglês. (A propósito, na tradução para o inglês ela recebia o título “The God Within Us”). O patente abandono do modo de pensar medieval, então, sequer ocorre, posto que ele simplesmente ainda não havia se formado, e o cristianismo não passava de uma pequena seita, bem diferente daquilo que se vê hoje. Interesante notar que, posteriormente, a filosofia estóica foi aproveitada e, de certa forma, deturpada pela incipiente Igreja Católica para se espalhar pelo Império Romano.

    Quanto ao pensamento clássico dos gregos, vale lembrar que a escola estóica na verdade tem origem helenística, posterior à tomada da Grécia pelo Império Macedônico. Ela se originou na Ásia Menor e conheceu seu esplendor em Roma - é dessa última fase que data a citação aí em cima. A diferença principal entre o estocismo (e a filosofia helenística em geral) e a filosofia tradicional grega é que esta é mais voltada para o individual (apesar de considerar o homem como um animal político), estabelecendo inclusive diferenças entre o homem livre grego e os demais, ao passo que aquela se volta para a noção de império, entendido aqui não como a imposição de um povo sobre outro, mas como uma noção de universalidade. Para o estoicismo, deus é o universo e o universo é deus, numa visão panteísta, e todo ser, animado ou não, pensante ou não, é um fração da divindade, razão pela qual todas as pessoas são iguais, e isso é um ponto em comum com o gnosticismo, como você mesmo assinalou. A única diferença que os filósofos estóicos aceitavam fazer era entre sábios e tolos, ou seja, aqueles que compreendiam seu universo e aqueles que não, mas nem por isso os primeiros seriam melhores ou mais divinos que os últimos - estes estariam apenas adormecidos.

    O estoicismo é uma escola de pensamento maravilhosa e que me atrai bastante. É reconfortante e consoladora, diferente do que algumas pessoas costumam pensar, além de ser muito voltada (principalmente durante a época romana) para a ética, para o modo de agir.

    E agora temos a elucidação, conforme você tinha solicitado, mas fora da página principal, para não assustar o leitor médio!

    Abraço.

  2. Carlos Lemes Says:

    Olá,

    De fato acabei me equivocando, Séneca foi modelo de pensador estóico no renascentismo, porém ele é de 65 antes de Cristo.

    Porém você acusa a Igreja de incipiente em seu tratamento com a filosofia estóica.

    Porém o estoicismo é oriundo dos discípulos de Heráclito, que tinham em raiz, como bem mencionado por você o panteísmo. Ainda tinha outro ponto forte a dialética e o eterno movimento do Ser.

    Ora sabemos que a filosofia católica se baseou principalmente em Aristóteles, antes disso ainda foi influenciada por Platão, mas logo no inicio o pensamento de Heraclito que estava presente nas teses dos maniqueus foi combatida por Santo Agostinho.

    Isso eu coloquei só para deixar mais claro que a filosofia estóica nunca compôs um lugar dentro dos estudos dos grande filósofos católicos

    Abraço

    Carlos Lemes
    http://leitorcritico.wordpress.com/

    Mais uma vez, estamos aqui em um período anterior ao que você menciona. Agostinho e Tomás de Aquino sequer pensavam em nascer, e vários estudiosos da História e do Direito romano concordam que o cristianismo primitivo fundiu-se quase perfeitamente com a cultura romana de então. As obras de Platão e Aristóteles encontravam-se perdidas (para serem redescobertas séculos depois por filósofos árabes e só então chegaram à Europa ocidental). Mais, não é à toa que o cristianismo contemporâneo e conhecido como ‘a grande síntese’, posto que reúne elementos de várias religiões da Antiguidade e das culturas pagãs européias. Em momento algum disse que o estoicismo foi fundamental à formação da filosofia católica, só afirmei que o mesmo foi absorvido, em parte – a parte que interessava ao cristianismo, pela Igreja incipiente.

    Não vou me aprofundar nessa questão, porque ela passa longe da proposta deste blog.

    Abraço,

    Sávio

  3. Telésforo Says:

    hahahaha Eu nunca imaginei encontrar esse tipo de discussão por aqui.

    Legal o post. Sou muito simpático ao estoicismo.

    Sò uma perguntinha, Sávio: você traduziu do latim?!

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