Filosofias de banheiro
Segunda-feira, 10 de Março de 2008
Nunca vi portas de banheiro público quanto as que vi hoje de manhã, no primeiro dia de volta às aulas da faculdade. Em vez dos tradicionais anúncios de teor sexual (só havia um, bem pequeno, de um negão ativo com 21cm de pau), encontravam-se coisas como trechos da Divina Comédia (Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate), frases em árabe que eu não consegui entender (pudera, meu árabe é extremamente precário, ainda mais quando deparo com um texto sem as vogais) e a palavra paz escrita em árabe, hebraico, russo, inglês, italiano, latim e português. Só pra completar a estranheza daquele banheiro, havia até mesmo sabonete nas pias.
Enquanto me aliviava (número 1!), me pus a pensar no significado daquelas inscrições (pelo menos no trecho da Divina Comédia, nas frases em árabe e na palavra paz repetida em línguas diferentes. O anúncio do negão ativo eu sei muito bem o que significa, e não, obrigado).
O primeiro que me chamou a atenção foi o Deixai toda esperança, vós que entrais, até porque estava escrito em vermelho, com letras razoavelmente grandes. É a inscrição que consta da porta do inferno, na obra de Dante. Inicialmente, isso contradiz com minha idéia de defecar, que é algo que dá alívio físico e espiritual. Por se tratar de banheiro público, contudo, talvez a coisa seja meio diferente, não sei. Nunca usei nem pretendo usar banheiros públicos para número 2, pelamordedeus.
E ainda resta uma questão: a esperança deve ser deixada do lado de dentro ou do lado de fora daquela porta? A inscrição se encontrava do lado de dentro, escrita com caneta hidrocor vermelha. Se a esperança precisar ser deixada do lado de fora, isso significa uma defecatio (em pseudo-latim, pra não sujar o texto com palavrões nem atrair paraquedistas pervertidos do Google) bastante desagradável, sem qualquer tipo de alívio espiritual. Acredito que faça bem mais sentido deixar as esperanças ali dentro, talvez até mandá-las descarga abaixo junto com os restos da digestão: afinal, o mundo é um lugar cruel, e fora do trono de porcelana e do alívio que ele representa é muito duro manter sempre uma atitude otimista.
Isso também seria mais condizente com a mensagem de paz repetida diversas vezes. Livre-se de tudo aquilo que te faz mal, dos restos inúteis que estavam dentro do seu corpo, e tenha paz aqui dentro deste cubículo. Ainda que ele seja sujo, fedorento e com pouca privacidade.
Porque cagar é o que nos irmana à natureza – afinal, como diz aquela música da Rita Lee, tudo vira bosta. É também aquilo que proporciona alívio físico e espiritual de modo mais imediato – bem mais rápido que uma semana num spa ou terapia. Como diriam Hermes e Renato, cagar é bom demais.
É, e eu não resisti ao dito palavrão…







Segunda-feira, 10 de Março de 2008 at 15:10
Nossa, que cubículo cult e filosófico… nos banheiros femininos, as incrições mais corriqueiras são: 1. aborto blablabláwhiskasachets (e em volta, um bando de gente dando pitaco ou no português do comentário, ou na questão de fundo do comentário); 2. ‘Salvem as batatas!’ Ou qualquer coisa sádica e pseudo vegetariana…